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Estatísticas do Caminho Português de Santiago

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Há algo no Caminho Português de Santiago que resiste à explicação racional. Milhares de pessoas decidem, todos os anos, deixar para trás a rotina, calçar as botas e caminhar durante dias em direcção a Santiago de Compostela. Algumas partem por fé. Outras por desafio. Outras ainda porque alguém lhes falou do Caminho e a ideia nunca mais as largou. E a maioria chega a Santiago diferente de como partiu.

Em 2025, o Caminho Português ultrapassou pela primeira vez os 100.000 peregrinos numa única temporada. É o segundo caminho mais percorrido do mundo, a seguir ao Caminho Francês, e cresce a um ritmo que poucos antecipavam. Mas por detrás dos números globais, pouco se sabia sobre quem são, de facto, os peregrinos portugueses. O que os move. Como se preparam. O que levam na mochila. O que os assusta antes de partir. E o que sentem quando chegam.

Foi para responder a estas perguntas que realizámos o maior estudo alguma vez feito em Portugal sobre o Caminho Português de Santiago. Com 1005 respostas recolhidas junto da nossa comunidade de mais de 100.000 pessoas, este é o retrato mais completo e rigoroso do peregrino português, desde a decisão de partir até à chegada à Catedral.

Alguns dos dados que encontrámos surpreenderam-nos. 63% partem motivados pela espiritualidade, mas o desafio físico e a necessidade de superação pessoal estão muito mais presentes do que se poderia pensar. 22% já fizeram o Caminho mais de cinco vezes e continuam a voltar. E há um dado que nos ficou: quase todos admitem que levaram roupa a mais.

Não encontrarás aqui impressões ou generalizações. Encontrarás dados reais, recolhidos junto de quem conhece o Caminho por dentro, e que nos permitem responder, com números, às perguntas que todos fazem antes de dar o primeiro passo.

Inhaltsverzeichnis

  • Quem são os peregrinos portugueses (idade, género, origem)
  • O que os leva a fazer o Caminho
  • Qual o percurso mais escolhido e o ponto de partida mais popular
  • Como se preparam (física e psicologicamente)
  • O que levam na mochila e o que acabam por não precisar
  • Quanto gastam por dia
  • Que lesões aparecem e quando
  • As maiores dificuldades no terreno
  • As apps e sites que mais usam
  • O que mudariam se voltassem a fazer

1. Perfil do peregrino português

Quase metade são mulheres

O Caminho Português está cada vez mais longe de ser território exclusivamente masculino. 40,9% das respostas foram de mulheres e 38,1% de homens (os restantes preferiram não especificar ou indicaram outra opção). Uma repartição que reflecte a crescente participação feminina nesta peregrinação.

A geração dos 31 aos 50 domina

O grupo etário mais representado é o dos 31 aos 50 anos, com 55,1% das respostas. Os peregrinos entre os 51 e os 70 anos representam 38%, o que coloca a grande maioria dos respondentes na meia-idade, pessoas com vida profissional activa e, frequentemente, uma motivação espiritual ou de superação pessoal para partir.

Maioritariamente licenciados e trabalhadores por conta de outrem

56,2% dos respondentes têm licenciatura ou formação superior, e 70,6% são trabalhadores por conta de outrem. Um dado importante para perceber a janela de disponibilidade para o Caminho: o principal obstáculo declarado por quem ainda não foi é, precisamente, a falta de tempo (referida por 32% de quem ainda não fez o Caminho).

A maioria vem do Porto, Lisboa e Braga

Os três distritos com mais respondentes são Porto (21%), Lisboa (16%) e Braga (11%). É também a partir destas cidades que partem a maioria dos peregrinos, o que explica o enorme peso do ponto de partida no Porto nos dados seguintes.

2. O que leva as pessoas ao Caminho

Espiritualidade acima de tudo

Quando perguntámos o que levou os peregrinos a fazer o Caminho, a espiritualidade foi a resposta mais frequente, com 63% das menções. Seguem-se o desafio físico (40%), o lazer (35%) e a religião (25%). Um em cada sete peregrinos fez o Caminho por desafio de um conhecido.

Entre quem ainda não fez mas planeia fazer, a espiritualidade é ainda mais dominante: 48% indicam-na como motivação principal.

Motivação% de menções
Espiritualidade63%
Desafio físico40%
Lazer35%
Religião25%
Desafio de alguém conhecido14%
Resultado de promessa7%

Por que é que quem ainda não foi ainda não foi?

Para os 187 respondentes que ainda não fizeram o Caminho, as principais razões são a falta de tempo, a dificuldade em arranjar companhia e não saber por onde começar.

3. Percursos e pontos de partida

O Caminho Central é o mais popular, mas a Costa cresce

O Caminho Central Português é, de longe, o percurso mais feito: 83% dos peregrinos que responderam já o fizeram. O Caminho da Costa surge em segundo lugar com 36%, seguido da Senda Litoral (20%) e do Caminho Inglês (9%).

No último caminho feito, 52% escolheram o Caminho Central, 11% a Costa e 10% a Senda Litoral, sinal de que, mesmo entre os mais experientes, o Central mantém preferência.

Valença/Tui e Porto dividem a liderança nos pontos de partida

Os dois pontos de partida mais populares são Valença/Tui com 241 peregrinos (30%) e o Porto com 231 (28%). Braga surge em terceiro com 22 respostas, e Lisboa com apenas 8, o que confirma que a maioria opta pelas versões mais curtas do Caminho.

4. Como se preparam para o Caminho

A maioria treina com caminhadas, mas quase um em cada quatro não faz nada

73% dos peregrinos prepararam-se fisicamente com caminhadas antes de partir. O ginásio aparece como segunda opção (16%), e a corrida e a bicicleta surgem de forma marginal. Mas um dado surpreendente: 21% dos respondentes não fizeram qualquer preparação física antes de partir e a maioria reconhece que teria sido importante tê-lo feito.

A preparação psicológica é quase inexistente

Apenas 7% dos peregrinos fizeram algum tipo de preparação psicológica antes do Caminho. A meditação foi a opção mais comum (5,5%), seguida do mindfulness e do coaching. 93% partiram sem qualquer preparação mental formal.

72% não leram nenhum livro sobre o Caminho, mas quem usa um guia parte com muito mais confiança

Apenas 28% dos peregrinos leram pelo menos um livro antes de partir. O recurso mais utilizado foi o nosso Guia do Caminho de Santiago, escolhido por 40% deste grupo (nota: este estudo foi realizado junto da nossa comunidade, uma base de mais de 100.000 pessoas entre grupo de Facebook e lista de contactos, o que naturalmente se reflecte neste resultado). Entre os restantes, os títulos mais mencionados foram o Caminho Português de Santiago de Compostela de Sérgio Fonseca e o Diário de um Mago de Paulo Coelho.

Os resultados deste grupo são esclarecedores. Os utilizadores do Guia destacam três contributos principais:

  • Preparação mental: o Guia permitiu fazer uma antevisão do percurso, etapa a etapa, paisagem a paisagem, reduzindo a ansiedade e tornando o desconhecido familiar antes de chegar lá.
  • Escolha e marcação do alojamento: com toda a informação organizada por etapa, a decisão de onde dormir deixou de ser uma fonte de stress e passou a ser parte do planeamento.
  • Confiança à partida: 80% dos utilizadores do Guia referem que este os ajudou a partir com mais confiança, um número expressivo tendo em conta que a “falta de capacidade física” e o “não saber como começar” estão entre os maiores receios declarados pelos peregrinos.

Num Caminho onde 93% das pessoas não fazem qualquer preparação psicológica formal, um guia prático funciona muitas vezes como o único ponto de ancoragem mental antes de dar o primeiro passo.

5. A mochila: o que levam (e o que não deviam)

Entre 20 e 30 litros é o tamanho preferido

A capacidade da mochila mais frequente é entre 20 e 30 litros (30%), seguida de 30 a 40 litros (25%) e 40 a 50 litros (17%). Apenas 5% usam mochilas acima dos 60 litros, sendo que os dados mostram que o peso é um problema frequente independentemente do tamanho.

A maioria parte com a mochila entre 6 e 8 kg

O peso mais comum da mochila à saída é 6 kg (21%), seguido de 7 kg (20%) e 8 kg (18%). Um em cada cinco peregrinos parte com mais de 8 kg, frequentemente acima do recomendado para longas caminhadas.

Peso à saída% de peregrinos
4 kg7%
5 kg13%
6 kg22%
7 kg21%
8 kg18%
Mais de 8 kg20%

A mochila é preparada, na maioria das casos, em cima da hora

47% preparam a mochila apenas 1 semana antes de partir. 35% fazem-no no dia anterior ou no próprio dia. Só 16% têm mais de duas semanas de antecedência na organização.

Comprou a mochila de propósito, na Decathlon

66% compraram uma mochila nova para o Caminho, e a Decathlon domina esmagadoramente o mercado de equipamento dos peregrinos portugueses. Em praticamente todas as categorias (mochila, calçado, vestuário, kit de primeiros socorros) a Decathlon é o destino número um, referida por 67% de todos os respondentes que compraram equipamento.

Roupa: a maioria leva uma combinação de técnica e casual

49% dos peregrinos levam uma combinação de roupa técnica e casual. 27% levam apenas roupa técnica. 12% levam só roupa casual. E a peça que aparece com mais frequência na lista do que não deviam ter levado é a roupa a mais, a resposta mais dada à pergunta sobre o que foi desnecessário na mochila.

Lê o nosso artigo sobre o que levar na mochila.

6. Calçado: o debate entre ténis e botas

O calçado é um dos temas mais debatidos entre peregrinos e os dados mostram que não há uma resposta certa:

  • Ténis: 47% dos peregrinos
  • Botas de cano médio: 21%
  • Botas de cano baixo: 20%
  • Botas de cano alto: 2%
  • Sandálias: 2%

63% compraram calçado de propósito para o Caminho, maioritariamente na Decathlon (57% das compras de calçado). As marcas mais usadas incluem Quechua, Asics, Merrell, Salomon e Adidas.

Lê o nosso artigo sobre como escolher o calçado para o Caminho.

7. O Caminho em números: tempo, ritmo e custos

A maioria faz o Caminho em 5 a 7 dias

Entre 5 e 7 dias é a duração mais comum, com 46% dos peregrinos nesta janela. Quem parte de Valença/Tui (o ponto de partida mais popular) faz tipicamente o Caminho em 5 a 6 dias, enquanto quem parte do Porto precisa de 10 a 14 dias.

Duração% de peregrinos
Menos de 5 dias11%
5 Tage19%
6 Tage17%
7 dias10%
8-9 dias14%
10 dias10%
11-12 dias10%
Mais de 12 dias8%

Entre 15 e 25 km por dia é o ritmo mais comum

58% dos peregrinos fazem entre 15 e 25 km por dia. 40% fazem mais de 25 km. Apenas 1% fazem menos de 15 km, o que confirma que, mesmo para iniciantes, o Caminho Português exige uma capacidade física considerável.

A maioria parte entre as 6h e as 7h da manhã

35% saem às 7h, 30% às 6h e 21% às 8h. Uma em cada dez pessoas parte antes das 6h, prática mais comum nos meses de verão para evitar o calor das horas centrais do dia.

Custo médio: entre 20 e 40 euros por dia

32% gastam entre 20 e 30 euros por dia, 24% entre 30 e 40 euros. 12% gastam mais de 40 euros diários, enquanto 24% gastam entre 10 e 20 euros, normalmente dormindo em albergues municipais e comendo nos supermercados.

Custo por dia% de peregrinos
Menos de 10€2%
10€ a 20€24%
20€ a 30€32%
30€ a 40€24%
Mais de 40€12%
Não sabe5%

8. Alojamento: entre albergues e hotéis

Os albergues municipais são a primeira escolha

43% preferem albergues municipais, 39% albergues privados. Apenas 9% optam por hotéis. Uma divisão que reflecte bem o espírito do Caminho: a maioria quer a experiência comunitária dos albergues, mas há um grupo crescente que valoriza o conforto dos albergues privados.

9. Lesões: bolhas no terceiro dia e dores nos joelhos

38% sofreram alguma lesão

38% dos peregrinos que já fizeram o Caminho registaram pelo menos uma lesão durante o percurso. As bolhas são de longe o problema mais comum:

LesãoFrequência
Bolhas58% das lesões
Dores nas pernas16%
Dores nos joelhos13%
Fraturas de stress3%

As bolhas aparecem no segundo ou terceiro dia

50% dos peregrinos que tiveram bolhas notaram-nas no segundo ou terceiro dia de Caminho. 19% logo no primeiro dia. Apenas 14% conseguiram chegar ao quinto dia sem problemas.

Lê o nosso artigo sobre as principais lesões do Caminho.

10. As maiores dificuldades no terreno

Perguntámos quais as maiores dificuldades enfrentadas durante o Caminho. As subidas dominam claramente:

Dificuldade% de menções
As subidas44%
As descidas26%
O calor24%
Falta de infraestrutura em alguns trechos13%
Dormir em espaços públicos11%
Qualidade do solo8%
A alimentação5%

11. Apps e sites: o Camino Ninja domina

O caminho é cada vez mais digital

O Camino Ninja é a app mais usada para orientação durante o Caminho (21% dos peregrinos que a usaram), seguido do Google Maps (9%) e de outras aplicações. Mas quase metade (49%) não usou qualquer aplicação de guia, navegando pelas setas amarelas e marcações no terreno.

Para a preparação, os sites mais usados foram o Camino Ninja (310 menções), o nosso site caminhoportuguesdesantiago.eu (274), o vagamundos.pt (183) e o Gronze (149).

Site / App de preparaçãoMenções
Camino Ninja310
caminhoportuguesdesantiago.eu274
vagamundos.pt183
Gronze149
caminhodesantiago.gal142

12. Como se desloca e como volta para casa

A maioria fez o Caminho a pé

81% dos peregrinos que já fizeram o Caminho foram a pé. 8% foram de bicicleta, e 9% combinaram os dois meios. Para chegar ao ponto de partida, a maioria desloca-se de carro ou autocarro, variando consoante o ponto de partida escolhido.

O autocarro domina o regresso

38% regressaram de autocarro, 15% de comboio, e surpreendentemente 14% voltaram de boleia, um fenómeno muito característico da cultura do Caminho, onde os peregrinos se ajudam mutuamente.

13. Começou acompanhado e chegou acompanhado

76% partiram acompanhados (seja com amigos, família ou em grupo organizado). Apenas 24% começaram o Caminho sozinhos. No entanto, quem começa sozinho raramente chega sozinho: a comunidade do Caminho é um dos seus maiores atractivos.

14. Mês: Setembro, Outubro e Junho são os favoritos

Mês% de peregrinos
Oktober18%
September16%
Juni14%
August14%
April13%
Mai11%
Juli5%

Outubro e Setembro dominam: são meses com menos calor, menos multidão e paisagens outunais. Julho, apesar de ser alta temporada em Portugal, é um dos meses menos escolhidos pelos peregrinos do Caminho Português.

15. Quanto tempo passa entre a decisão e a partida?

27% levam entre um e seis meses a concretizar a decisão de partir. 24% levam entre 6 meses e 3 meses (ou seja, 3 a 6 meses). Apenas 3% tomam a decisão na semana em que partem. O Caminho é, para a maioria, uma decisão de médio prazo que exige um período de preparação e organização.

Tempo entre decisão e partida%
Na semana em que partiu3%
Entre 1 semana e 1 mês9%
Entre 1 a 3 meses17%
Entre 3 a 6 meses24%
Entre 6 meses e 1 ano28%
Mais de 1 ano19%

16. Os receios antes de partir

Para os que ainda não fizeram o Caminho, os principais receios são:

  1. Falta de capacidade física (30%)
  2. Lesões (26%)
  3. Os quilómetros diários (17%)
  4. Estar muitas horas sozinho (9%)

Curiosamente, o medo de não ter companhia é um receio frequente, mas os dados mostram que 76% dos peregrinos partem acompanhados.

17. Bastão: sim ou não?

58% dos peregrinos usaram bastão durante o Caminho. Os benefícios mais mencionados foram o apoio nas descidas, a redução do impacto nos joelhos e o equilíbrio em terreno irregular. Os que não usaram referem principalmente o incómodo de o transportar antes do início do percurso.

18. O que mudariam

Quando perguntámos o que os peregrinos fariam de diferente num próximo Caminho, as respostas mais frequentes foram:

  • Levar menos roupa na mochila, a lição mais universal
  • Começar mais cedo (noutro ponto de partida mais distante)
  • Usar melhores meias e calçado mais rodado
  • Fazer mais preparação física antes de partir
  • Reservar menos, ou mais, estadias com antecedência
  • Dedicar mais tempo a cada etapa, sem pressa

19. Conclusão: o que os dados nos ensinam

Este estudo revela um peregrino português típico com características bem definidas: tem entre 31 e 50 anos, é licenciado, trabalha por conta de outrem, parte motivado principalmente pela espiritualidade e pelo desafio pessoal, faz o Caminho Central a partir do Porto ou de Valença, e gasta em média entre 20 e 30 euros por dia.

Prepara-se fisicamente com caminhadas, mas pouco antecipadamente. Compra equipamento na Decathlon. Leva roupa a mais. Tem bolhas no terceiro dia. Chega com uma mochila mais pesada do que deveria, e parte mais leve da próxima vez.

E, acima de tudo: volta. O Caminho cria peregrinos recorrentes: 22% já o fizeram mais de 5 vezes.

E tu, já foste? Quando vais? Conta-nos nos comentários!

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