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“A Caminho” com a Isabel e o Pedro

Depois de uma década de casamento e de uma vida marcada por caminhadas partilhadas, decidiram celebrar os seus 10 anos juntos de uma forma única: percorrendo o Caminho Português Central rumo a Santiago de Compostela. O que começou como um desejo antigo transformou‑se numa experiência profunda, marcada por calor intenso, encontros inesperados, mergulhos revigorantes e momentos de superação.

Nesta entrevista, a Isabel e o Pedro partilham motivações, desafios, aprendizagens e memórias que ficaram gravadas para sempre. Um testemunho autêntico para quem procura inspiração, para quem sonha fazer o Caminho pela primeira vez ou para quem deseja regressar a Santiago com um novo propósito.

Se procuras partilhas reais do Caminho de Santiago, dicas práticas para peregrinos, experiências no Caminho Português Central ou simplesmente uma história que aquece o coração, estás no lugar certo.

Entra nesta viagem e descobre como o Caminho transformou a Isabel e o Pedro.

Estimated reading time: 8 minutos

1. O que te motivou a fazer o Caminho?
Já tínhamos feito anos antes uma Peregrinação a Pé a Fátima, ainda como namorados. Já tínhamos falado de fazer o Caminho de Santiago, tínhamos amigos que o tinham feito e tinha sido uma experiência muito positiva. 2025 era o ano da celebração de 10 anos de casamento (de caminho juntos). E, por isso, sentimos que era uma ótima ideia: voltar a peregrinar juntos, desta vez como casal!

2. Quanto tempo passou entre decidires e começares o Caminho?
Não foi algo muito planeado em tempo ou detalhe. Mas, habitualmente, todos os grandes momentos na nossa vida seguem um padrão semelhante. Num mês planeámos, traçámos o percurso, marcámos os albergues e fizemo-nos ao Caminho.

3. Que caminho escolheste e porquê?
Escolhemos o caminho Central Português, porque queríamos sair de Portugal, neste caso, partir de Valença e conseguir fazer o caminho em cerca de 5 dias.

4. Quantos dias demoraste?
Foram 5 dias de caminho. Mas no primeiro dia apenas caminhámos a partir do final da tarde e no último dia apenas caminhámos de manhã (chegámos antes de almoço a Santiago). No total fizemos a distância de Valença a Santiago em 4 dias.

5. Que etapas fizeste e quais foram as mais marcantes?
Na primeira etapa partimos de Valença (foi especial sair de Portugal e atravessar a ponte de Valença para Tui a pé) e caminhámos até O Porriño.
Na 2.ª etapa caminhámos até à localidade lindíssima de Puente Sampayo num dia de muito calor (e onde terminámos o dia num mergulho na praia do rio Verdugo).
Na 3ª etapa (o dia mais quente perto dos 40 graus) terminámos em Caldas de Reis, onde pudemos relaxar os músculos nos banhos termais.
Na 4ª etapa (a mais cansativa em distância e esforço mas descansámos mais perto de Santiago, o que permitia no último dia aproveitar todos os últimos km de uma forma mais tranquila) terminou na pequena Aldea da Pedreira.
Na última etapa chegámos a Santiago e é memória que fica. Chegar à Praça e simplesmente contemplar a Catedral, sentir o caminho vivido pelos pés e pernas mas acima de tudo o caminho do coração, é uma memória que trazemos no regresso a casa e que permanece!

6. Como te preparaste física e mentalmente para o Caminho?
Caminhamos todos os dias. Desde os confinamentos da pandemia que o fazemos diariamente. Quer seja ao nascer do sol ou depois do jantar, caminhar faz parte do nosso caminho.

7. Fizeste o Caminho sozinho ou acompanhado? Se acompanhado, com quem?
Fizemos os 2 sozinhos.

8. Qual foi o momento mais desafiante?
Foram 3 os momentos mais desafiantes! Sentir dores musculares e não perceber bem como ultrapassar, logo no início do 2.º dia (o medo de não conseguir caminhar até ao fim). O 2.º momento aconteceu no dia mais quente (quase 40 graus) ao planear parar na hora de almoço à sombra, comer e recuperar, mas descobrir que a localidade onde se planeou ir fica a alguns km a subir, sem sombra e, em desespero, parar ali mesmo à sombra, desanimar e comer o que trazia na mochila (o desespero quase irracional que toma conta de nós). O último momento aconteceu no 4.º dia, véspera de chegar a Santiago, e onde o calor e a distância que parecia esticar a cada conjunto de km, pesaram sobre a capacidade das pernas, dos pés, das costas e, acima de tudo, da cabeça (o peso do caminho). Em todos estes momentos o importante: apoiar quem está a fazer o caminho connosco, em força e em espírito!

9. Houve algo que te surpreendeu durante o caminho?
O Caminho, com paisagens e vivências diversas mas lindíssimo.

10. Qual foi a melhor refeição que tiveste no caminho?
Ao 3.º dia estavam 38 graus e era realmente difícil nas horas de maior calor e menos árvores de suportar o calor. E foi ao início da tarde que encontrámos o Oasis Café Bar, numa garagem, um tinto de verano fresco e tortilha, depois de atravessarmos o deserto!

11. Onde encontraste a melhor estadia ao longo do percurso?
Albergue Aldea da Pedreira, uma aldeia pequena mais isolada mas num local lindíssimo com um ribeiro junto ao edifício.

12. Conheceste alguém que te marcou?
Além de caminharmos sozinhos, acabámos por nos cruzar com várias pessoas: portugueses e estrangeiros, e até nos voltámos a cruzar em mais do que um dia. Em cada uma delas encontrámos Deus. Sem dúvida, foi Deus quem mais nos marcou neste caminho, em cada pessoa com que nos cruzámos.

13. O que não pode faltar na mochila de um peregrino?
Nunca pode faltar água.

14. Como te sentiste ao chegar a Santiago?
Completos! Somos um. Quando saímos de mãos dadas de Portugal sozinhos e chegamos a Santiago sentimo-nos mais COMPLETOS.

15. Tens alguma música que marque o teu caminho para acrescentarmos à nossa playlist?
Queira eu o que Deus quer · CUPAV

16. Se só pudesses dar uma dica às pessoas que estão a pensar fazer o caminho, qual seria?
Água. A água cura: água na mochila, água no caminho. Todos os dias mergulhámos. Quer seja no mar, no rio, no chuveiro. Água!

17. Houve alguma aprendizagem ou mudança pessoal que tenha resultado da experiência?
Acreditamos e conhecemos melhor as nossas capacidades e limites enquanto casal.

18. Após completares o Caminho, sentes que a experiência correspondeu às tuas expectativas iniciais? De que maneira?
Superou por completo as nossas expectativas. Já tínhamos feito o Caminho de Fátima. Mas esta foi uma experiência muito diferente. Sabíamos que podia ser bom, acabou por ser a melhor experiência de caminho das nossas vidas.

19. Participaste em alguma celebração ou evento cultural ao longo do Caminho? Como foi essa experiência?
Todos os dias celebrámos a Palavra durante o caminho. Foi uma experiência para viver a 2. Depois de chegar a Santiago, celebrámos a Missa do Peregrino, vimos o Botafumeiro e terminámos a abraçar o Apóstolo Santiago. No regresso para dormir, à noite, cantámos e dançámos nos claustros da praça onde estavam músicos e muitos peregrinos. Uma celebração de todos e com todos.

20. Se tivesses que descrever o Caminho em três palavras, quais seriam?
Água. Amor. Acreditar.

21. Tens planos de fazer o Caminho novamente ou explorar outras rotas?
Sem dúvida! Gostámos muito da experiência e queremos repetir. Ainda sem data, mas voltaremos a caminhar para Santiago por outra rota.

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