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“A Caminho” com a Tânia

Há histórias que não começam com um mapa, mas com um impulso. A da Tânia é uma dessas. Antes de colocar a mochila às costas, já caminhava por dentro, guiada por uma vontade silenciosa de descobrir algo maior do que o destino final.

O seu percurso não foi apenas marcado por quilómetros, setas amarelas e paisagens bonitas, foi um chamamento interior, daqueles que não se explicam, apenas se sentem.

Entre fé, amizade, resiliência e momentos que parecem escritos pelo próprio destino, a Tânia viveu o Caminho de uma forma intensa, humana e profundamente espiritual. Caminhou em grupo, enfrentou chuva torrencial, viveu bênçãos inesperadas, emocionou‑se com encontros improváveis e descobriu, passo a passo, que o Caminho tem uma forma única de nos devolver ao essencial.

E houve um momento em particular que tocou profundamente todo o grupo, um daqueles instantes que ficam gravados na alma. No interior de uma pequena capela, ao som de uma senhora a tocar viola, sentiram algo maior do que eles. Como o sacerdote lhes disse naquele dia: “Aqui deixamos todos os pesos para trás, não os da mochila, mas os da alma.” Foi um daqueles encontros que não se planeiam, mas que transformam.

As fotos que partilhamos contam a história da Tânia e de todos os que caminharam lado a lado:
Nuno Cardoso, Sónia Silva, Cátia Carneiro, Victor Sampaio e Isabel.
E também daqueles que, mesmo não estando fisicamente presentes, caminharam espiritualmente com o grupo e tiveram os seus nomes na Compostela: Artur Soares e André Neves.

Nesta entrevista, a Tânia partilha o que a motivou, como se preparou, os momentos que a marcaram e as aprendizagens que trouxe consigo. Uma conversa sincera, inspiradora e cheia de verdade.

Se o Caminho te chama, deixa‑te inspirar pela experiência da Tânia.

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1. O que te motivou a fazer o Caminho?
O que me motivou a fazer o caminho, penso que foi um chamamento interior. O ir em descoberta de algo, que ainda não sabia bem o quê?! Experienciar vivências que ouvia de outros caminheiros e que gostaria de as sentir . A natureza, o silêncio, amizade e a fé.

2. Quanto tempo passou entre decidires e começares o Caminho?
Foram basicamente 6 meses, onde formámos um grupo de amigos . Tratamos e planeamos todo trajeto. Entre alojamentos, transportes e estudar muito bem os lugares emblemáticos a visitar.

3. Que caminho escolheste e porquê?
O primeiro caminho que fizemos foi o Costa, no ano seguinte fizemos Santiago – Muxia- Fisterra e o ano passado Variante Espiritual ( aquele que mais gostei).

4. Quantos dias demoraste?
É assim nós fizemos por etapas em Portugal ( caminho central) 5 sábados a partir de fevereiro e depois fizemos seguido desde Pontevedra até Santiago ( 4 dias) pois chegamos a Santiago e ainda realizámos a etapa de Muxia a Fisterra, ou seja, ( 5 dias até ao nosso destino final).

5. Que etapas fizeste e quais foram as mais marcantes?
Da variante espiritual, sinceramente eu gostei de todas as etapas. Mas as que mais me marcaram pela beleza natural foi a partir de Pontevedra. A visita ao Mosteiro Armenteira, foi sem dúvida, marcante. Pois chegámos mesmo na benção dos ramos ( altura da Páscoa).

O translatio ao longo do Rio Ulla, assistir ao nascer do sol, vislumbrar esse momento único, foi sem dúvida uma benção para o nosso grupo . Por último assistir ao lava pés em Muxia, numa cerimónia emotiva, findou a nossa jornada da melhor forma.

6. Como te preparaste física e mentalmente para o Caminho?
Como todos os anos, fazemos o caminho por altura da Páscoa, começamos a fazer caminhadas e trilhos logo no início do ano. Com as sapatilhas que iremos usar no caminho . Desta forma, testamos a nossa resistência, fortalecemos a parte muscular e cardio. Mentalmente, vamos projetando o caminho: pesquisamos sítios emblemáticos que queremos visitar;

Nos dias antes da partida, resguardamo-nos por casa, meditando e fazendo por ter uma alimentação saudável. Mantemos sempre o contacto com o grupo para solidificar os nossos laços. Falámos quais são os limites de cada um e fazemos por respeitar.

7. Fizeste o Caminho sozinho ou acompanhado? Se acompanhado, com quem?
Sempre fiz todos os caminhos acompanhada. O ano passado fizemos a Variante Espiritual num grupo de 7 amigos. No início éramos 8 ( meu pai com 74 anos) tb fazia parte, mas um problema cardíaco o impediu de nos acompanhar neste caminho. Este ano seremos 8 novamente 🙂

8. Qual foi o momento mais desafiante?
O momento mais desafiante, foi sem dúvida a chegada a Padron, pois chovia torrencialmente. Ainda paramos um pouco num café, mas como a chuva não abrandava, tivemos de seguir viagem mesmo assim e o facto a estarmos completamente encharcados torna difícil a caminhada .

9. Houve algo que te surpreendeu durante o caminho?
Houve algo que me marcou e surpreendeu neste caminho foi sem dúvida as pessoas que encontramos e que nos aproximavam da nossa fé 🙏. Então, a meio do caminho entrámos numa pequena capela ao som de uma música lindíssima tocada na viola por uma senhora de um sorriso enternecedor e a benção individualizada, que tivemos de dois Párocos que se encontravam lá. Um momento tão intenso, simbólico e marcante pelo abraço final.

10. Qual foi a melhor refeição que tiveste no caminho?
Não considero que ao longo do caminho tenhamos uma má refeição, mas sem dúvida, que a melhor é sempre á nossa chegada .

11. Onde encontraste a melhor estadia ao longo do percurso?
Uma amiga que vai connosco no caminho, é ela que trata das nossas estadias, atempadamente, ficámos sempre bem alojados.

12. Conheceste alguém que te marcou?
Sim, desde um casal alemão já de muita idade que faziam o caminho com tanto amor e sempre com um sorriso nos lábios, passando pelos Páracos em Armenteira e o padre de Muxia aos quais os seus discursos nos tocaram profundamente.

13. O que não pode faltar na mochila de um peregrino?
Essa pergunta é muito subjetiva e depende de cada um . Mas devemos ter em conta de levar só o essencial, pois ao longo do caminho vais aperceber-te que não necessitas de muita coisa que carregas. Mas é importante o spray de gelo (dá muito jeito para alívio da dor), preparar um kit pequeno de primeiros socorros. Uma capa da chuva ( caso vás nessas alturas) , umas boas meias que possas trocar e umas sandálias ou chinelos para ao fim do dia descansar os pés.

14. Como te sentiste ao chegar a Santiago?
A chegada a Santiago é sempre uma emoção muito forte, inexplicável. Como eu costumo dizer é uma coisa que não se explica, sente-se. É alegria, choro, abraço e a sensação de dever cumprido para connosco e para com a fé que abraças em cada caminho.

15. Tens alguma música que marque o teu caminho para acrescentarmos à nossa playlist?
Sim 🙂 uma música que nos motivava em cada subida íngreme, quando o cansaço já era muito. A música: Asas delta ( dos clã).

16. Se só pudesses dar uma dica às pessoas que estão a pensar fazer o caminho, qual seria?
Desfrutem cada momento, projetem o vosso caminho ( se vão sós ou em grupo), mentalizem-se que vão ter momentos acompanhados, mas tb onde estão sós com os vossos pensamentos e esses são os mais intensos. Mas o mais importante é a tua decisão em ir , depois deixa-te viver o caminho.

17. Houve alguma aprendizagem ou mudança pessoal que tenha resultado da experiência?
Passei a dar importância ao momento, viver a cada dia como sendo único e não baixando os braços perante os obstáculos. Entendi o verdadeiro significado de ser resiliente.

18. Após completares o Caminho, sentes que a experiência correspondeu às tuas expectativas iniciais? De que maneira?
A minha experiência ultrapassou todas as expectativas, por ter sido tão intensa, enriquecedora e transformadora .

19. Participaste em alguma celebração ou evento cultural ao longo do Caminho? Como foi essa experiência?
O ano passado, como fomos por altura da Páscoa tivemos o privilégio de assistir á lavagem dos pés e á benção dos ramos . Foram momentos de fé e emocionantes que nos tocou a todos.

20. Se tivesses que descrever o Caminho em três palavras, quais seriam?
Fé, resiliência e amor

21. Tens planos de fazer o Caminho novamente ou explorar outras rotas?
Sim, este ano faremos parte do caminho Francês apartir de Sarria- Santiago

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