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“A Caminho” com a Susana

Susana sorridente com mochila e roupa de caminhada
No seu 9.º Caminho, e talvez o mais íntimo de todos, a Susana decidiu partir quase sem avisar, apenas com uma mochila, a fé que a acompanha desde sempre e a coragem de enfrentar a solidão como quem reencontra uma velha amiga.

Escolheu o Caminho Inglês numa época em que quase ninguém o percorre e foi precisamente nesse silêncio que descobriu respostas, encontros inesperados, bênçãos discretas e uma força interior maior do que imaginava.

A história da Susana não é apenas sobre quilómetros percorridos. É sobre entrega, superação, espiritualidade e a beleza de perceber que, mesmo quando caminhamos sozinhos, nunca caminhamos verdadeiramente sós.

Esta é a sua jornada. E vale cada palavra.

Lê a entrevista completa em baixo.

Estimated reading time: 7 minutos

1. O que te motivou a fazer o Caminho?
Já a algum tempo que desejava fazer o caminho Inglês e sozinha, este foi o meu 9 caminho e o mais solitário. Sou peregrina já a alguns anos e confrade da Confraria de Santiago de Compostela, o Caminho de Santiago é algo que me motiva todos os anos, sou devota deste Santo e o caminho ajuda-me a renovar a alma e o espírito ano após ano. Queria usufruir da experiência de uma evolução de autoconhecimento e introspeção, e numa época especial do ano, o Natal, onde andam tão poucos peregrinos. E em Dezembro 2025, antes do ano acabar de um dia para o outro fiz a mochila e fiz-me ao caminho.

2. Quanto tempo passou entre decidires e começares o Caminho?
Menos de 48h00, o desejo era imenso e hesitar não foi uma hipótese. Organizei tudo em casa e parti rumo a um novo caminho.

3. Que caminho escolheste e porquê?
O caminho Inglês, para mim de todos os que já fiz, a pé ou de bicicleta, o mais solitário e desafiante.

4. Quantos dias demoraste?
4 dias

5. Que etapas fizeste e quais foram as mais marcantes?
Ferrol a Mino, Mino a Prezedo, Prezedo a Sigüeiro e de Sigüeiro até Santiago

6. Como te preparaste física e mentalmente para o Caminho?
Fisicamente, pratico exercício físico e mentalidade sou uma pessoa de energia positiva e faço meditação.

7. Fizeste o Caminho sozinho ou acompanhado? Se acompanhado, com quem?
Sozinha

8. Qual foi o momento mais desafiante?
No 3 dia, 4 horas numa floresta sem me cruzar com ninguém, foi arrepiante, bastante solitário. Foi muito emocional.

9. Houve algo que te surpreendeu durante o caminho?
Sim, o facto de não me encontrar com quase nenhuns peregrinos, quatro peregrinos no total, quando me cruzava com os populares sentia que tinham por mim preocupação. Eram atenciosos e cuidadosos querendo ajudar, partilhavam histórias.

10. Qual foi a melhor refeição que tiveste no caminho?
Almoço em Presedo, depois de assistir à missa, numa esplanada. Uma tortilha típica que eu tanto adoro e um bom bife quando cheguei a Sigüeiro.

11. Onde encontraste a melhor estadia ao longo do percurso?
Albergue em Sigüeiro, Camino Real, era bastante acolhedor e tipicamente familiar.

12. Conheceste alguém que te marcou?
Sim, em Sigüeiro um pai com a filha de 9 anos, caminhavam juntos neste caminho Inglês, para ultrapassarem juntos um luto, morte de uma mãe… É sempre muito complicado. Tocou me imenso esta história de luta e superação. E já combinavam já o próximo, sugeri a Variante Espiritual… trocamos lembranças, foi um bom momento.

13. O que não pode faltar na mochila de um peregrino?
Na minha mochila nunca falta um amoleto, que me relembra a minha infância e ao mesmo tempo a minha filha. Aconselhava a levar além dos pertences de necessidade pessoal, algo que seja especial e motivador, pois temos momentos em que nos vamos abaixo e a motivação é um alento.

14. Como te sentiste ao chegar a Santiago?
Serena, tranquila, missão cumprida, desejo realizado a minha motivação não me falhou.. as dúvidas e o medo ficaram mais uma vez pelo caminho.

15. Tens alguma música que marque o teu caminho para acrescentarmos à nossa playlist?
Sim, “On the way”

16. Se só pudesses dar uma dica às pessoas que estão a pensar fazer o caminho, qual seria?
Que não se preocupassem com as dificuldades ou receios que possam encontrar pelo caminho, que se entreguem em pleno ao caminho e que vivam cada dia intensamente. Cada obstáculo é uma conquista e uma superação individual.

17. Houve alguma aprendizagem ou mudança pessoal que tenha resultado da experiência?
Claro que sim, tudo o que é supérfluo deixa de ter tanta importância. Longe do ruído do mundo, nasce uma conversa honesta connosco próprios. Cada passo traz-nos uma nova descoberta. No caminho somos livres, não temos pressas, o relógio não existe. Seja mais devagar ou mais rápido, o importante é chegar. Entre as subidas e as descidas é a nossa alma que avança sempre em primeiro lugar. Regressamos sempre mais leves de quando partimos. Cada passo é uma descoberta e essa descoberta somos nós próprios.

18. Após completares o Caminho, sentes que a experiência correspondeu às tuas expectativas iniciais? De que maneira?
Sim correspondeu, na solidão estamos mais acompanhados do que pensamos. A nossa própria companhia é a nossa inspiração e passamos a admirar-nos ainda mais. Passamos a valorizar mais o Eu em primeiro lugar. Somos a nossa melhor companhia.

19. Participaste em alguma celebração ou evento cultural ao longo do Caminho? Como foi essa experiência?
Sim, participei na Eucaristia de domingo em Prezedo onde recebi uma bênção especial do Sr. Padre e benzeu-me um objeto religioso muito especial que levava. Antes de chegar à praça parei no Convento das Carmelitas onde um frade me deu a sua bênção através da roda e ofereceu-me um escapulário. Falamos um pouco com a voz e com os olhos. Chegada à Catedral fui à missa do Peregrino.

20. Se tivesses que descrever o Caminho em três palavras, quais seriam?
Aceitação, Reflexão e Superação

21. Tens planos de fazer o Caminho novamente ou explorar outras rotas?
Sim, brevemente vou fazer o meu 10 caminho, com um grupo de Jovens, sou animadora do grupo e será a primeira vez deles. Vamos fazer o caminho da Costa. Estamos muito entusiasmados.

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