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“A Caminho” com a Bazo

Há peregrinos que fazem o Caminho… e há peregrinos que deixam o Caminho transformá‑los. A história da Bazo não é apenas sobre quilómetros percorridos, mochilas às costas ou mapas traçados, é sobre coragem, superação, fé interior e a força silenciosa que nasce quando alguém decide finalmente ouvir um desejo guardado durante anos.

Nesta entrevista, mergulhamos na jornada de uma mulher que atravessou montanhas, mares, fronteiras e limites físicos que nem sabia que tinha. Que encontrou anjos em estranhos, família em desconhecidos e respostas no silêncio das etapas mais duras. Que viveu o Caminho Francês, o Caminho Português da Costa e agora percorre um “caminho digital”, partilhando com o mundo aquilo que o Caminho lhe ensinou.

Se procuras inspiração, autenticidade, vulnerabilidade e aquela chama que faz alguém pensar “se ela conseguiu, talvez eu também consiga”, esta entrevista é para ti. A Bazo não conta apenas como caminhou, conta como renasceu. E cada resposta é um convite para perceberes porque é que o Caminho nunca termina… apenas se transforma.

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1. O que te motivou a fazer o Caminho?
Sonhava com esta viagem há muito tempo. Sentia uma necessidade profunda de viver esta aventura e testar os meus limites. O Caminho era um desejo que guardava no coração há anos.

2. Quanto tempo passou entre decidires e começares o Caminho?
O planeamento levou algum tempo, mas o momento decisivo foi quando recebi a autorizacja para as férias de 6 semanas em 2022. Foi o empurrão que precisava para finalmente começar.

3. Que caminho escolheste e porquê?
Fiz o Caminho Francês em 2022 (37 dias) e o Caminho Português pela Costa em 2024 (do Porto a Santiago e Finisterra). Escolhi estas rotas pela sua história e beleza. Atualmente, em 2026, estou a fazer o “caminho digital”, editando os vlogs das minhas viagens para o meu canal de YouTube “Plecak i Droga” para inspirar outros peregrinos.

4. Quantos dias demoraste?
O Caminho Francês em 2022 fiz em 37 dias. No Caminho Português da Costa em 2024, caminhei durante 21 dias.

5. Que etapas fizeste e quais foram as mais marcantes?
Fiz as etapas completas desde St. Jean e do Porto. No Francês, a subida aos Pirenéus foi inesquecível. No Português, as passadeiras de madeira junto ao oceano foram mágicas. Mas o mais marcante é sempre a chegada à Praça do Obradoiro em Santiago.

6. Como te preparaste física e mentalmente para o Caminho?
Comecei a treinar em setembro de 2019. Caminhava em todos os intervalos do trabalho (exceto nos dias de chuva) e, nos dias de folga, fazia longas caminhadas com mochila para cidades vizinhas. Além disso, comprei um crosstrainer onde treinava com frequência: via filmes e as pernas “pedalavam” sozinhas. Mentalmente, o meu motor era o desejo profundo de realizar este sonho.

7. Fizeste o Caminho sozinho ou acompanhado? Se acompanhado, com quem?
Parti sozinha em ambas as vezes, mas no Caminho nunca se está realmente só. No Caminho Francês, logo no início para Roncesvalles, conheci a Elżbieta. Caminhámos juntas até Santiago – ela foi um verdadeiro anjo enviado do céu! Eu sou polaca a viver na Alemanha e ela vive na Polónia. No segundo Caminho (Português), comecei com duas raparigas da África do Sul e depois caminhei com um pai e uma filha (italianos a viver na Alemanha). Eles tiveram de interromper o Caminho devido ao tempo limitado de férias do pai, por isso fiz o resto do percurso sozinha até Finisterra. Estas amizades internacionais são a alma do Caminho.

8. Qual foi o momento mais desafiante?
O maior desafio foi físico. Em ambas as jornadas, tive problemas muito graves nas pernas. Na altura, não sabia que tinha uma predisposição genética para trombose, esporões calcâneos em ambos os pés e uma rutura parcial do tendão de Aquiles. Caminhar com estas dores, sem saber o que se passava, foi extremamente difícil, mas a minha vontade de chegar era maior.

9. Houve algo que te surpreendeu durante o caminho?
O que mais me surpreendeu foi a aura mágica do Caminho e a bondade das pessoas – vi “anjos” em todo o lado! Mas tive também uma grande surpresa em Santiago: devido a um grande festival com muitos jovens, não encontrei alojamento e tive de dormir ao relento perto da estação. Foi um momento de grande humildade que mostrou a verdadeira resistência do peregrino.

10. Qual foi a melhor refeição que tiveste no caminho?
Nas aldeias a comida era muito melhor do que nas cidades, servida com muita generosidade e sabor autêntico. Na Galiza comi muito bem, mas Portugal conquistou-me com os “Pastéis de Nata”. Comia vários todas as manhãs! Experimentei-os em muitos sítios ao longo do caminho, mas os de quase todas as pastelarias do Porto foram, sem dúvida, os mais deliciosos.

11. Onde encontraste a melhor estadia ao longo do percurso?
Tive a sorte de ficar em muitos albergues maravilhosos, mas o momento mais espiritual foi em Roncesvalles. Eu estava desesperada e sem forças para subir, por isso rezei em voz alta junto à estátua de Nossa Senhora. Mal disse “Amén”, a Elżbieta apareceu e falou comigo. Tenho este momento da oração gravado em vídeo e faz parte do meu vlog! Foi ali que começou a nossa amizade e a verdadeira magia do Caminho.

12. Conheceste alguém que te marcou?
Conheci pessoas incríveis! No Caminho Francês, a Ingrid da Alemanha, que caminhava desde 2020 e atravessou meia Europa. Também o Janek da Polónia, um jovem forte que adoeceu, mas com quem mantivemos contacto até nos reencontrarmos em Santiago. Um momento inesquecível foi conhecer o Pepe, um “verdadeiro templário”, em cuja casa/museu dormimos. No Caminho Português, foi uma honra caminhar com um pai e uma filha italianos. Todos eles marcaram o meu coração.

13. O que não pode faltar na mochila de um peregrino?
Na minha mochila, os itens indispensáveis são: um bom saco de cama, um canivete multiusos e um poncho para a chuva. Estes são os básicos que garantem a segurança e o conforto em qualquer situação no caminho.

14. Como te sentiste ao chegar a Santiago?
Chegar a Santiago foi uma explosão de emoções! Chorei em frente à Catedral, sentindo que não queria ir para casa. Mas houve dois momentos que marcaram o meu espírito: na Cruz de Ferro, deixei dois pedras de sodalite que levava comigo desde 2019, dedicadas aos meus filhos. Foi uma libertação espiritual. Outro momento mágico foi descobrir a cidade de Vigo num dia de sol radiante. Foi tão belo que ainda hoje me faltam as palavras; é um lugar onde sonho voltar.

15. Tens alguma música que marque o teu caminho para acrescentarmos à nossa playlist?
A minha canção é uma música polaca: “Noga za nogą wesoły marsz…” (Passo a passo, uma marcha alegre). Cantava imenso todos os dias! Apesar da dor física, a felicidade era tanta que sentia necessidade de expressá-la através do canto durante todo o percurso

16. Se só pudesses dar uma dica às pessoas que estão a pensar fazer o caminho, qual seria?
A minha dica seria: acreditem sempre em vocês mesmos. A força espiritual é muito maior do que a força física. Quando o corpo parece desistir, é a alma i a fé que nos levam para a frente. O Caminho ensina-nos que somos muito mais fortes do que imaginamos.

17. Houve alguma aprendizagem ou mudança pessoal que tenha resultado da experiência?
O Caminho mudou-me completamente. Ganhei uma humildade profunda, maior autoconfiança e uma abertura genuína para com os outros. Aprendi a valorizar as pequenas coisas e, acima de tudo, percebi quão pouco precisamos realmente para ser felizes. É uma lição de desapego e gratidão que levo para a vida toda.

18. Após completares o Caminho, sentes que a experiência correspondeu às tuas expectativas iniciais? De que maneira?
Superou todas as expectativas, mas deixou-me com uma enorme vontade de continuar. Mal cheguei a Santiago de Compostela, já estava a planear o próximo. Em vez de querer voltar para casa, o meu coração queria voar diretamente para o Porto para começar tudo de novo. O Caminho não é um fim, mas um recomeço constante.

19. Participaste em alguma celebração ou evento cultural ao longo do Caminho? Como foi essa experiência?
Sim, em Vigo! Perto do nosso albergue, houve uma festa folclórica com danças, cantos e uma banda ao vivo. Havia multidões de pessoas e uma fogueira enorme. Foi um momento maravilhoso e cheio de energia que me fez sentir a cultura local de uma forma muito especial.

20. Se tivesses que descrever o Caminho em três palavras, quais seriam?
Sol, Sorriso, Canto.

21. Tens planos de fazer o Caminho novamente ou explorar outras rotas?
Sim! Assim que recuperar a saúde das minhas pernas, quero fazer o Caminho Português novamente. O meu plano é levar comigo uma amiga da Polónia que sonha com esta jornada, mas tem medo de ir sozinha. Quero partilhar com ela a magia que o Caminho nos dá.

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